Serginho Martins - Atual colaborador do ArqBacana é arquiteto, designer gráfico,artista plástico e professor-doutor da FAUUSP. Pesquisa as relações entre Arte, Arquitetura, Design e Cidade. Pretende mostrar seu viés crítico permeado de humor e ironia sobre as questões culturais do cotidiano das cidades através dos diálogos do visual com o verbal. Contato: sergiore@usp.br

Estava pensando estes dias sobre as conquistas capilares da geração dos anos sessenta
e, lembrando de uma música antiga do então tropicalista Gilberto Gil que dizia:” Eu
gosto mesmo de estar por dentro com o meu cabelo belo como a juba de um leão”.
Realmente, depois dos Beatles e dos Stones, quem não tinha suas longas melenas,
estava absolutamente por fora do espírito da época.
Retrocedendo um pouco mais, Baudelaire, o dândi flaneur de cabelos verdes foi um
exemplo fascinantemente precursor. Em compensação, Schopenauer pisava
loucamente na bola, ao proferir essa blague infeliz : “ as mulheres são seres de
cabelos longos e de idéias curtas.” Hoje, as variações são muitas, independentemente
do sexo: cabelos longos e idéias idem, cabelos médios e idéias médias , cabelos curtos
e idéias mais curtas ainda, convivem polifonicamente.
Outro precursor foi Marcel Duchamp que recortou uma estrela no couro cabeludo
ainda nos anos vinte. Além de continuamente dar dicas irônicas, relacionava Arte e
Vida Cotidiana quando sugeria “ colecionar os pentes pelo número de dentes.”
Aconteceram momentos históricos curiosos quando os nobres usavam perucas, mas
como signos de diferenciação social e status. Os magistrados ingleses ainda
preservam estas imagens de “seriedade e austeridade”.
Ao contrário da imagem estranha e original de Andy Warhol com sua peruca de cabelos descoloridos e
pontudos. Coincidência é ser o seu nome (Warhol) um anagrama de (Jean) Harlow,
a diva platinum blonde do cinema .Com o passar dos anos, existem ainda
alguns, sem grana para implantes, que adotam o visual com perucas caricatas, sem
cabeça bem resolvida para aceitar o fato.
Millor Fernandes já disse num hai-kai : “ a gente parte e reparte
o cabelo com arte.
Até que ele parte...
Os antigos se consolavam cantando aquela marchinha : “ Nos, os carecas somos os
maiorais. Pois, na hora do aperto, é dos carecas que elas gostam mais, mais ...”
Felizmente, hoje, em dia, a liberdade de design capilar, tem valorizado bastante os
carecas reais e muitos outros que adotam esse design radicalmente minimalista.
As mulheres neste percurso dos cabelos, já tinham adotado, nos anos vinte, o corte La
Garçonne, signo da liberdade conquistada da época.
Mas foi nos sessenta que os homens puderam ficar cabeludos como as mulheres.
Foi o momento inaugural e lúdico de poder jogar os cabelos de um lado para o outro
e sacudir, eventualmente, também os pensamentos.
Arnaldo Antunes e Jorge Benjor, mais recentemente, puderam retomar Gilberto Gil
cantando ; “ Quem quer a força de Sansão ? Quem quer a juba de leão ? ”
Fica claro, hoje em dia, que o cabelo é um material deliciosamente redesenhável.
O design pode ser alterado totalmente em poucos meses. Décadas de conquista
permitem quase tudo no mundo contemporâneo, inclusive todos os cortes e cores.
O duro é observar os políticos, símbolos do inexpugnável reduto do simulacro do
cabelo jovem.
Com seus cabelos descaradamente tingidos na cruel ilusão de rejuvenescimento,
passam suas imagens caricatas e carcomidas.
Os cabelos com suas nuances pseudo-naturais proliferam: o castanho-acaju, o preto
retinto “como a asa da graúna”, até o louro-burro. Todos com o corte engessado ,
parecem traduzir o conservadorismo, o reacionarismo e me fazem ficar com os
cabelos em pé.
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