

Luis Vairo - Bacharel em administração pela FGV, começou carreira como analista financeiro da "Tecbens Investimentos". Em 2000 transferiu-se para o time de análise de negócios da "Motorola SPS", em Phoenix, nos Estados Unidos, e em 2002 retornou ao Brasil como diretor executivo da "Quality Building". Foi um dos fundadores da "Sabiá Residencial", em 2006, onde hoje exerce a presidência e diretoria de incorporação. Há 5 anos atua como professor convidado do curso de investimentos imobiliários da FGV.
Envie para um amigo
Nota do Editor:
É com grande interesse que essa coluna abre as portas a um público mais diversificado que os habituais arquitetos-urbanistas-paisagistas-designers-engenheiros.
Ao contrário de continuarmos discutindo dentro de um universo fechado, acredito ser fundamental estarmos abertos a uma franca conversa com o mercado. Afinal, queiramos ou não, são os principais atores da construção das nossas cidades, hoje.
A feliz surpresa foi encontrar, neste artigo escrito especialmente para nossa coluna, um jovem empresário que se formou com as práticas de mercado que costumamos questionar, mas cujas próprias percepções ao longo do tempo o tem distanciado da média de seus colegas.
No texto abaixo, podemos constatar que algumas de nossas aflições quanto à produção arquitetônica, qualidade habitacional e construção da cidade tem, sim, um paralelo ‘do lado de lá’. Talvez seja o momento de perdermos o receio do diálogo, há muito refutado por ambas as partes, que poderá gerar uma cidade melhor no futuro: mais justa, eficiente e inteligente. Sustentável em seu sentido mais amplo, porém só possível se trabalharmos todos juntos.
CONSTRUIR UMA NOVA MENTALIDADE É NOSSA OBRA MAIS DIFÍCIL
Em 1998 pude participar marginalmente do nascimento das obras do primeiro trecho do Rodoanel. Na ocasião era difícil acreditar que um projeto tão grandioso pudesse sair do papel e, à medida que as obras caminhavam, crescia em mesma proporção a miopia com que todos nós, em especial o poder público, enxergava seus resultados. A começar por seu logo, toda a sua lógica foi direcionada para o perímetro urbano interno ao seu traçado. Todavia, sob essa ótica, perdemos a gigantesca chance de ajudar uma das maiores cidades do mundo a ter um crescimento mais planejado. Uma pena! Passados pouco mais de 10 anos, percorremos hoje seu primeiro trecho instalado e, sem dificuldade, notamos todo o tipo de caos ao seu redor. De loteamentos irregulares a ligações clandestinas, encontramos uma massa urbana caótica, com seu auge nas “auto-construções”.
Não há dúvidas que inúmeros fatores contribuem para essa situação e, embora tenhamos algumas sinalizações positivas como, por exemplo, ao menos a discussão sobre o plano diretor da cidade e a revisão/adequação da nova lei de zoneamento, há um inimigo invisível para o qual poucos se atentam: a mentalidade de boa parte dos empresários imobiliários.
Em especial, desde 2005, o mercado imobiliário sofreu uma mudança de patamar poucas vezes vivido em qualquer outra indústria. Além do que todos sabemos, como a atração maciça de recursos e as aberturas de capital, parte das empresas passou por um profundo processo de profissionalização. Algumas de forma muito bem sucedida e outras nem tanto. Todavia, o mercado ainda continua consideravelmente fragmentado e regido por uma mentalidade, no mínimo, conservadora.
Entendo que é raro nos depararmos com algum empreendimento que por seu porte, concepção ou estilo nos salte verdadeiramente aos olhos. Durante o boom ocorrido na última década, o mercado de alto-padrão já perdeu uma grande chance de conceber, em especial em um setor onde a limitação de recursos é supostamente menos restritiva, projetos efetivamente diferenciados e que pudessem oferecer um status de ocupação com um padrão genuinamente mais elevado. Ao contrário, esta batalha foi esmagadoramente vencida por um quase monopólio do estilo neo-clássico, muitas vezes concebidos por empresas e projetistas sem qualquer compromisso com os impactos que estas obras terão por, no mínimo, os próximos 100 anos.
Agora estamos diante da maior oportunidade imobiliária já vivida desde os tempos áureos do extinto BNH. Numa saudável convergência de estabilidade econômica, políticas públicas e fundamentos sociais favoráveis, o mercado popular ou também chamado econômico passou a ser a vedete entre os diferentes setores da construção civil.
Diante disso, entendo ser obrigatório alertar para a reflexão que este momento requer. Em recente encontro com um dos maiores empresários do setor, fiquei perplexo ao ouvir um relato entusiasmado que há quase 40 anos sua empresa utiliza exatamente o mesmo projeto. Ora, em pouquíssimas outras indústrias isso é possível. A sociedade mudou, o estilo das famílias mudou e a rotina das cidades também. Isso deve ser considerado e, mais do que isso, digerido a ponto de encontrarmos um tênue equilíbrio entre o que a realidade atual nos exige e o que desejamos do futuro. Em outras palavras, por exemplo, não há como negar, numa cidade como São Paulo, a questão da segurança. Mas, ao mesmo tempo, devemos lutar para controlar certos feudos que vêm se criando em diversas regiões.
Por último, há quem possa dizer que pensar em moradia popular com conceito arquitetônico, com materiais adequados ou integrados à sua micro-região são luxos secundários, pois a prioridade para parte dessa população vai pouco além de um novo teto. Todavia, o sucesso de uma nova geração de produtos de consumo em massa, liderados por objetos como o automóvel “Nano” e o I-Pod, mostra que é absolutamente viável aplicar-se o ditado “mais com menos”. Para isso, resta o desafio de ousarmos começando pelo final: predispondo-nos verdadeiramente a entender o que querem nossos clientes e encarar os investimentos necessários a viabilizar-se esse novo jeito de pensarmos em urbanismo e habitação.
“As pessoas não sabem o que querem até você mostrar a elas”, Steve Jobs.
Voltar
Home