Fernando Luiz Lara - é professor da University of Texas at Austin School of Architecture onde dirige o grupo LAMA (Latin American Modern Architecture) de pesquisa. Arquiteto pela Universidade Federal de Minas Gerais (1993) e PhD pela Universidade de Michigan (2001), Lara teve sua tese de doutorado sobre a disseminação do modernismo no Brasil publicada em 2008: The Rise of Popular Modernist Architecture in Brazil, Gainesville: UPF. Com mais de uma centena de artigos publicados, Prof Lara discute as arquiteturas brasileiras moderna e contemporânea e seus significados no contexto socio-econômico-ambiental. Fundador do Studio Toró, uma ONG focada no desafio de construir debaixo de milhares de milímetros de chuva, Lara é também consultor do escritório Horizontes que trabalha com a arquitetura pública em todas as suas escalas. Seus trabalhos mais recentes sobre as favelas brasileiras investiga a disseminação do conhecimento arquitetônico até os mais humildes extratos sociais.

DA INSUSTENTABILIDADE DA FORMA - 05.10.2011



Acabo de ler no The Guardian que o Centro Niemeyer em Avilés, na Espanha, inaugurado seis meses atrás ao custo de 44 milhões de Euros (120 milhões de reais) foi fechado. A ideia de que o complexo de Avilés iria fazer para aquela cidade o mesmo que o Guggenheim fez para Bilbao foi jogada no lixo, junto com todo o dinheiro investido.

Isso me parece tão absurdamente insustentável que cabe perguntar, com indignação: porque, ainda, em pleno século 21 se constroem museus sem acervo e sem público?

É o nosso equivalente contemporâneo das pirâmides celebrando a eternidade de seus faraós. É essa a arquitetura com que imaginamos contribuir para um mundo melhor? Toneladas de concreto e vidro dando forma às mesmas cúpulas e passarelas ondulantes de sempre, construídas para funcionar 180 dias?
 
Também sintomáticas são as exposições que marcaram os seis meses de vida do centro: Woody Allen tocando jazz e fotografias de Jessica Lange. É isso. Nosso mestre velhinho se tornou mais uma celebridade no mundo do dinheiro fácil. Só que o dinheiro acabou, a Espanha está quebrada e a arquitetura….. bem, a arquitetura vai ficar lá por umas boas décadas esperando que um próximo governante com mentalidade do século 20 venha restaurar, ao custo de outros muitos milhões de Euros, as gigantescas esculturas penetráveis a que se resume a obra de Niemeyer dos últimos 10 anos. A cultura da celebridade absorveu até nosso melhor arquiteto do século passado.

Alguma coisa nesta fórmula me parece absolutamente insustentável.

Em tempo: Leia aqui o texto ficcional a cerca do assunto que Fernado Lara escreveu no seu blog, o Parede de Meia.

Leia também:
- Inauguração do Centro Niemeyer em Avilés marcou o aniversário de 103 anos de Niemeyer


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Comentários

De: Laide Sonda em 07/10/2011 10:12:27
Não seria o caso de alertar para a questão os que ainda teimam em construir obras parecidas que demandam "toneladas" de concreto e muitos reais? A catedral de Belo Horizonte por exemplo.
Admiro as pessoas lúcidas que não bebem sempre da mesma fonte sem examinar a qualidade da água, ao menos, de vez em quando.


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