Fernando Luiz Lara - é professor da University of Texas at Austin School of Architecture onde dirige o grupo LAMA (Latin American Modern Architecture) de pesquisa. Arquiteto pela Universidade Federal de Minas Gerais (1993) e PhD pela Universidade de Michigan (2001), Lara teve sua tese de doutorado sobre a disseminação do modernismo no Brasil publicada em 2008: The Rise of Popular Modernist Architecture in Brazil, Gainesville: UPF. Com mais de uma centena de artigos publicados, Prof Lara discute as arquiteturas brasileiras moderna e contemporânea e seus significados no contexto socio-econômico-ambiental. Fundador do Studio Toró, uma ONG focada no desafio de construir debaixo de milhares de milímetros de chuva, Lara é também consultor do escritório Horizontes que trabalha com a arquitetura pública em todas as suas escalas. Seus trabalhos mais recentes sobre as favelas brasileiras investiga a disseminação do conhecimento arquitetônico até os mais humildes extratos sociais.

ENERGIA EMBUTIDA - 27.10.2011



Na semana passada tive uma ótima conversa com Francisco Gomes, arquiteto norteamericano (filho de portugueses) que leciona aqui em Austin, na Universidade do Texas. Cisco Gomes é obcecado por construção: materiais, técnicas e processos. Nos últimos anos, Cisco Gomes tem se dedicado a entender o fluxo de energia nos edifícios. Seu atelier, no ano passado, foi dedicado a investigações com materiais de baixa energia embutida como areia, brita e pedras de mão.

O interessante na sua pesquisa é a inversão de um parâmetro de medida de sustentabilidade. Estamos, segundo Cisco, mirando o alvo errado. Gastamos os últimos 20 anos tentando fazer os edifícios gastarem menos energia depois de prontos e usando para isso as mais avançadas tecnologias disponíveis. Do vidro duplo com alta refração até as células fotovoltaicas, insistimos no mais caro agora, para economizar depois. Esta estratégia pode ser interessante para os arquitetos e seguramente é lucrativa para as construtoras que ganham com base no custo da obra. Mas será que é realmente a melhor estratégia em termos da utilização racional dos recursos naturais? Em que ponto a energia embutida na elaboração de materiais de alta tecnologia passa a ser mais importante que a energia gasta depois para aquecer, resfriar e iluminar os ambientes?

Para se ter uma idéia, a brita tem 0,083MJ/kg, enquanto o tijolo tem 3,00 MJ/kg e o aço 20MJ/kg. Já o alumínio, apesar de altamente reciclável, tem 155MJ/kg ou seja, 1500 vezes mais energia embutida que a brita, já contado aí todo o ciclo de produção até a entrega no local da obra. Painéis fotovoltaicos têm 4700MJ/kg (Clique aqui para ver a tabela de energia embutida).

Uma fachada high-tech de alumínio e fotovoltaicas precisa durar 50 vezes mais tempo e, ainda, permitir um gasto de eletricidade 50 vezes menor que uma fachada de tijolo para empatar a conta em termos de energia.

Viável? Me parece que não.

É certo que vale a pena investir mais na obra se tivermos certeza de que o edifício vai funcionar por muitas décadas. Isso funciona para residências, por exemplo, mas não para edifícios de escritórios, em que todo o envelope interior (divisórias, piso e forro) é trocado a cada 5 anos. Muito menos para edifícios comerciais onde a moda exige trocar a casca interna a cada 2 ou 3 anos.

Então vale olhar mais para as arquiteturas de Solano Benitez e Eládio Dieste e menos para Norman Foster e Zaha Hadid.

Mas isso vocês já sabiam e eu estou só dando um empurrãozinho com os números, né mesmo?


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Comentários

De: Rossin em 28/10/2011 13:46:03
Esclarecedor...Parabens Fernando!!


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