Fernando Luiz Lara - é professor da University of Texas at Austin School of Architecture onde dirige o grupo LAMA (Latin American Modern Architecture) de pesquisa. Arquiteto pela Universidade Federal de Minas Gerais (1993) e PhD pela Universidade de Michigan (2001), Lara teve sua tese de doutorado sobre a disseminação do modernismo no Brasil publicada em 2008: The Rise of Popular Modernist Architecture in Brazil, Gainesville: UPF. Com mais de uma centena de artigos publicados, Prof Lara discute as arquiteturas brasileiras moderna e contemporânea e seus significados no contexto socio-econômico-ambiental. Fundador do Studio Toró, uma ONG focada no desafio de construir debaixo de milhares de milímetros de chuva, Lara é também consultor do escritório Horizontes que trabalha com a arquitetura pública em todas as suas escalas. Seus trabalhos mais recentes sobre as favelas brasileiras investiga a disseminação do conhecimento arquitetônico até os mais humildes extratos sociais.

LENDO AS LETRAS MIÚDAS - 14.09.2011



Eu devia estar feliz da vida por ter acabado de ler um relatório do WWF (World Wildlife Fund) elaborado em parceria com o escritório OMA/AMO, de Rem Koolhas, proclamando que o planeta pode se sustentar somente com energias renováveis lá pelo ano de 2050 (em que eu vou estar bem velhinho, mas, espero, bem vivinho).

Tenho um grande respeito por Rem Koolhas, suas perguntas são sempre mais interessantes que suas respostas. Também respeito o WWF por sua luta em favor dos pandas, pinguins, ursos e outros animais ameaçados de extinção.

Mas nem toda reputação acumulada me permite varrer para debaixo do tapete uma série de propostas perigosas (pra não dizer irresponsáveis) do relatório. Lançado alguns meses atrás, o Energy Report do WWF foi celebrado por várias mídias, até que alguns leitores mais cuidadosos começaram a esmiuçar o que ele realmente significava. E viva a blogosfera que nos permite ter acesso fácil e rápido a centenas de analistas (Thakara, Lindberg), cujas críticas não vão aparecer na Globo nem na CNN nem na BBC, mas que estão aí, disponíveis para todos os pensantes com acesso a internet, ou seja, a maioria dos terráqueos.

Basicamente, o relatório WWF/Koolhaas diz que o mundo pode atingir a auto-suficiência em energias renováveis construindo um enorme grid de trasmissão global que leve energia barata de onde ela pode ser produzida (trópicos) para onde ela pode ser consumida (Europa e EUA). Um problema sério desta fantasia de globalização é que ninguém perguntou aos mexicanos se eles querem encher o país de hidroelétricas para vender eletricidade para a Califórnia, ou se os marroquinos e líbios querem encher o Magreb de fotovoltáicas para vender kWh para a Alemanha.  Ah, mas o relatório contempla sim os 5 billhões de terráqueos que não vivem da OCDE. Para eles serão desenvolvidos fornos de alta performance para substituir os atuais fornos a lenha.

Em resumo: sem mudar uma vírgula dos hábitos de consumo de energia do norte, o WWF propõe captar energia barata renovável no sul. Tudo isso faz sentido quando se lê uma notinha na página de rosto do relatório: elaborado com recursos generosamente doados pela ENECO, gigante energético holandês.

Francamente, esperava mais de Koolhaas e do WWF.


 


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Comentários

De: Hamilton Jr. em 15/09/2011 21:42:46
Por isso que prefiro muito mais os relatórios da série "[r]evolução energética" produzidos pelo Greenpeace.


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