Fernando Luiz Lara - é professor da University of Texas at Austin School of Architecture onde dirige o grupo LAMA (Latin American Modern Architecture) de pesquisa. Arquiteto pela Universidade Federal de Minas Gerais (1993) e PhD pela Universidade de Michigan (2001), Lara teve sua tese de doutorado sobre a disseminação do modernismo no Brasil publicada em 2008: The Rise of Popular Modernist Architecture in Brazil, Gainesville: UPF. Com mais de uma centena de artigos publicados, Prof Lara discute as arquiteturas brasileiras moderna e contemporânea e seus significados no contexto socio-econômico-ambiental. Fundador do Studio Toró, uma ONG focada no desafio de construir debaixo de milhares de milímetros de chuva, Lara é também consultor do escritório Horizontes que trabalha com a arquitetura pública em todas as suas escalas. Seus trabalhos mais recentes sobre as favelas brasileiras investiga a disseminação do conhecimento arquitetônico até os mais humildes extratos sociais.

O INSUSTENTÁVEL LIBESKIND - 09.12.2010


Edifício Vitra, do arq Daniel Libeskind
Edifício Vitra, do arq Daniel Libeskind
Edifício Vitra, do arq Daniel Libeskind

Escrever sobre sustentabilidade me obriga, às vezes, a escrever sobre o insustentável. Há algumas semanas um edifício do Daniel Libeskind a ser construído em São Paulo foi divulgado e eu fui dar uma olhada, curioso….

 Como todo lançamento de alto luxo que se preze, o edifício Vitra se diz sustentável. Mas como o próprio nome diz trata-se de um edifício envolvido por um prisma de vidro. Que eu saiba o planeta está esquentando e não resfriando, e São Paulo ainda se localiza vem juntinho ao trópico de capricórnio. Ou seja, nos nove meses de agosto a abril o prisma de vidro em torno da estrutura vai acumular um calor insuportável. Mesmo com toda a ventilação possível do efeito chaminé parte deste calor vai passar pra dentro da edificação. E ninguém ainda contou para o comprador da cobertura de 1100 metros quadrados que um bafo beirando os 60, 70 graus vai subir pela fachada, certo?

 Deixemos de lado a cobertura e vamos falar um pouquinho do apartamento tipo que beira os 600m2. A planta é incrivelmente parecida com outros apartamentos tamanho “jumbo”, com quartos de empregada e dois elevadores de serviço, signos de uma modernização incompleta e extremamente desigual. Lembra necessariamente a planta do Parque Guinle, projetado por Lucio Costa nos anos 40. Só que menos elegante e sem as lições de sombreamento e ventilação do modernismo brasileiro.

 Aliás, também insustentável é a passagem de tantos arquitetos europeus e norte-americanos pelo Brasil em busca de projetos. Parece 1929 de novo, uma grave crise financeira no norte leva as estrelas da arquitetura a buscarem trabalho no sul. Com a diferença que Costa e Niemeyer souberam tirar proveito das visitas e costurar uma arquitetura brasileira de altíssimo nível. Mas e hoje, qual a herança de projetos como este deslocado Libeskind?

 Em resumo, não tenho nada contra apartamentos de 600 metros quadrados e dois quartos de empregada. Do ponto de vista da sustentabilidade são até melhores que casas do mesmo tamanho a 50 km de distancia. Mas quando penso num modelo de sustentabilidade para o futuro fica difícil justificar esta exuberância de consumo.  Revestido com um prisma de vidro então a coisa fica complicada, por mais Low-E que seja...

 Em resumo, Libeskind desperdiçou uma excelente oportunidade com um projeto sem inspiração e absolutamente insustentável.


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Comentários

De: gabriela de toledo em 10/05/2011 16:27:40
o 'insustentável' pavão...


De: Rubens Werdesheim em 16/12/2010 08:50:42
saindo do achismo ,só para ilustrar e situar :

http://www.estadao.com.br/especiais/predios-verdes,127553.htm


De: Rubens Werdesheim em 16/12/2010 01:01:14
De música nós entendemos. Arquitetura é melhor deixar pra lá....


De: Pablo em 15/12/2010 18:08:37
Bom que foi um brasileiro que falo na defesa do Daniel, gostaria ser brasileiro nato e no de coração para falar abertamente do que constroem aqui, por brasileiros supostamente educados.
quer um exemplo , olhem o mega edifício da Petrobrás em Espírito Santo, bancado com dinheiro do povo...como faram climatizar as duas caixas gigantes de 10 andares vidro com sol batendo o meio dia inteiro violentamente do nor noroeste. acham que con com dinheiro, painéis caríssimos alumínio furadinho e ostentação fica tudo numa boa!!
e o morro que destruiram? alcança com fazer uma caríssima jardinagem e botar visitas das escolas para falar dos macacos e palmeiras imperiais?
e o pedaço de teto gigante com estrutura de caiu com uma chuva forte, algum fala ?
donde estudaram esses caras, no sabem do custo energético, e no pensam o imaginam na imagem ridícula que mostram para o mundo e os seres urbanos pensantes?
e claro que o autor da critica no tem coragem de morder a mao que o alimenta.
Lara, eu te desafio fazer uma critica dessa obra bilionária da Petrobrás !!!


De: Rubens Werdesheim em 15/12/2010 16:22:19
A sustentabilidade tem várias formas, segundo critérios diferentes :

- Se em termos absolutos de consumo energético e de materiais talvez caiba a crítica sobre excessos.Mas não temos dados para esses balanços.


- Se numa soma de fatores, o prédio pode ser certificável , o LEED está aí para ilustrar.

- E se no tripé econômico ,social e ambiental talvez seja mesmo sustentável.Aliás , esse é "O" critério.

Muito cedo e pouca informação para assentar o porrete num arquiteto como Libeskind.

Cheira mais a misoneísmo e a xenofobia tupiniquim ,com direito a preconceito distribuído à larga como sempre.


De: Angela Marcia em 12/12/2010 11:05:02
É muito bom que comentarios como este possam reverberar chamando a atenção para pontos que são realmente importantes e possa assim, ir se desfazendo um gosto instalado por atributos de uma arquitetura que nada contribui para o bem viver, não traz conforto, apenas, enaltece aspectos dito "esteticos", que já deveriam estar em desuso!


De: andy gruber em 10/12/2010 15:06:02
excelente artigo! nada mais que a pura verdade! infrelizmente estao usando a marca "libeskind" somente para aumentar o valor por metro quadrado de area privativa...mas aumentar a qualidade da nossa arquitetura...nem pensar!


De: M Tereza Regina Leme de Barros Cordido em 10/12/2010 12:15:41
Excelente crítica! Para abrir os olhos principalmente aos novos atores de arquitetura quando buscam referências projetuais.


De: Heverton Carmo em 10/12/2010 10:29:22
Como mestre na área, creio que o foco é mercadológico. Afinal, infelizmente MODA veennndddeee!!! A banalização da sustentabilidade é gritante. Pele de vidro, país tropical, só se for fachada sul e as vezes norte!!!
E viva o "Manual do Arquiteto Descalço"!!!


De: Pablo Mendez em 09/12/2010 20:26:56
Rolo uma grana para o Daniel!! no e pra matar o cara!!!
Alias, depois de oito anos no brasil, no acredito ja ver alguma arquitetura que poda ser decentemente insustentável.
E que nas universidades Brasileiras no ensinam lidar com coisas tan elementares como Sol, Vento, Visuais, Arbores existentes, Parece que aqui so tem aquele librinho do corbu
Nas obras grandes que rolam por ali no da pra ver nenhum interesse real que nao seja a contemporização estética e falta e critério bio ambiental, o como fala Niemeyer, a mediocridade militante.... se no gosta do comentario pode ir na biblioteca e tentar achar ~Vivenda e Clima~ de Wladimiro Acosta, circa 1940, muita sorte, duvido que exista... ah , no e para copiar o cara, e para aprender a pensar...


De: Arq. João Francisco Noll em 09/12/2010 16:41:43
Caro Fernando,
Se um apartamento de 600m² já é insustentável, cobertura de 1100m² é duplamente insustentável.
Quantas pessoas poderiam viver nessa área se se fizessem apartamentos normais?
Ocupar muito espaço é signo de insustentabilidade.
Nesse caso, o termo sustentabilidade é usado apenas para vender. E vender mais caro.


De: Steven Julie em 09/12/2010 16:27:08
Concordo quando se afirma que o projeto é inexpressívo, principalmente quando comparado à outros do mesmo autor, ainda assim ainda louvo a iniciativa de uma arquitetura contemporânea avessa e marco final aos neo-classissismos do passado.


De: Marcelo Antoniazzi em 09/12/2010 16:04:00
Corretíssimo. Mas a mesma crítica vale para grande parte dos projetos, principalmente de torres comerciais, de arquitetos brasileiros. Mas para estes não há sequer a desculpa esfarrapada de pouca familiaridade com o clima local.


De: charles marques em 09/12/2010 15:07:35
O mais triste nesta história toda, é as instituições não se
manifestarem (IAB,ASBEA,AREA,SINDICATOS...)e os Nossos
Grandes Mestres? tão atuantes no período militar....
Nem uma palavrinha.
E lá vem eles nas asas da Panair,faz tempo...faz tempo...


De: Mauricio Melara em 09/12/2010 14:43:26
Muito bem colocado....


De: Fernando Simon em 09/12/2010 14:02:49
Corretíssimo! É bom ouvir o que pensamos!


De: lua nitsche em 09/12/2010 13:56:14
excelente!!
tava faltando alguém falar !


De: Agnaldo Tavares em 09/12/2010 13:28:07
Excelente crítica.


De: Eduardo Amado em 09/12/2010 12:36:09
Booaaaaa !!!!!


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