

Fernando Luiz Lara - é professor da University of Texas at Austin School of Architecture onde dirige o grupo LAMA (Latin American Modern Architecture) de pesquisa. Arquiteto pela Universidade Federal de Minas Gerais (1993) e PhD pela Universidade de Michigan (2001), Lara teve sua tese de doutorado sobre a disseminação do modernismo no Brasil publicada em 2008: The Rise of Popular Modernist Architecture in Brazil, Gainesville: UPF. Com mais de uma centena de artigos publicados, Prof Lara discute as arquiteturas brasileiras moderna e contemporânea e seus significados no contexto socio-econômico-ambiental. Fundador do Studio Toró, uma ONG focada no desafio de construir debaixo de milhares de milímetros de chuva, Lara é também consultor do escritório Horizontes que trabalha com a arquitetura pública em todas as suas escalas. Seus trabalhos mais recentes sobre as favelas brasileiras investiga a disseminação do conhecimento arquitetônico até os mais humildes extratos sociais.


A ideia de ciclo nos remete sempre à natureza. As coisas voltando ao princípio, nascimento, crescimento, maturidade, morte, renascimento….
Pensei muito nisso esta semana, quando saíram várias notícias sobre a perda record de população em Detroit. Conheço bem a cidade que é símbolo da indústria automotiva mundial porque morei muitos anos em Ann Arbor, a 70km de distância. Visitei a lendária Rouge Plant, síntese império de Henry Ford. Levei vários amigos brasileiros a visitar o Greenfield Village Museum, onde estão alguns automóveis famosos como o carro em que Kennedy morreu ou as primeiras lâmpadas elétricas de Thomas Edison.
Detroit é mais que um símbolo da glória e da decadência da indústria norte-americana. É um laboratório vivo do que pode acontecer com uma cidade quando não existem limites ou controles para o capital. Um exemplo vivo da insustentabilidade do modelo capitalista-industrial do século 20 e do muito que precisa ser feito para que o século 21 não seja ainda pior.
Pois a história de Detroit se revela nos números. A 100 anos atrás, mais ou menos quando Henry Ford começou a produzir automóveis na linha de montagem (1908). A cidade tinha 400 mil habitantes. O sucesso da indústria automobilística (e a política de melhores salários de Ford, justiça seja feita) atraiu milhares e, em 1920, a cidade chega a 1 milhão (quarta maior cidade dos EUA naquele momento). Em 1929, antes da maior crise financeira do século, Detroit tinha 1 milhão e meio de habitantes. Cresce depois mais devagar chegando a 1.8 mi em 1950. A partir daí começa a perder população. As novas fábricas de automóveis vão para Califórnia e pro Sul, onde estão os compradores. As vias expressas ajudam a vender os subúrbios mais distantes (e mais carros) para a classe média. A tensão racial explode no final dos anos 60, o preço do petróleo dispara no início dos anos 70 e os carros japoneses dominam o mercado a partir dos anos 80. Detroit primeiro perdeu a população rica, depois perdeu até a população pobre, já que não há empregos nem para fritar hamburger.
Entre 2000 e 2010, a cidade perdeu 25% da sua população, (mais que New Orleans depois do Katrina) e o último censo contou 713.000 habitantes, pouco mais que número de 1910.
O resultado é uma mancha urbana 3,5 vezes maior que a população efetiva. A cidade é povoada de lotes vagos (na melhor das hipóteses) e edifícios abandonados caindo aos pedaços. Um cenário absolutamente desolador. Interessante perceber que várias das propostas de recuperação da cidade passam pela natureza: biocombustíveis, agricultura urbana e até mesmo reflorestamento.
Depois de um século vivendo de derivados de petróleo, uma Detroit arrasada pela industrialização que ela mesma inventou fecha o ciclo e volta ao início, sem gás suficiente para renascer.
http://www.nytimes.com/2011/03/23/us/23detroit.html?_r=1&ref=us
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De: Pablo em 14/05/2011 07:15:00
Meus Caros, em que parte da matéria Fernando Lara fala de trepar o repovoar...Muito bom o analise histórico Fernando, agora me diz Rapaz, e verdade o tédio e o chato de viver nos USA que fala Charles Bukowsky?

De: Vagner José de Almeida em 28/03/2011 11:55:01
Algumas cidades virando quase cemitérios e em nossa São Paulo tanta gente indo morar atrás de portarias e muros em busca de "segurança" e sossego. Bom exemplo esse de Detroit, para que pessoas, preocupadas com "qualidade de vida", se isolam e negam o que mais importa em uma cidade, a convivência, a troca de referenciais, o crescimento pessoal, o exercício da cidadania, enfim, a própria essência da cidade. Muitas dessas pessoas não percebem sequer que à medida que o muro de suas casas crescem, mais pessoas mal intencionadas podem ficar esperando do lado de fora, como disse, procedentemente, ontem(27/3/20110, o arrojado, útil e expressivo Jaime Leirner na Revista da folha!

De: Agnaldo Tavares em 26/03/2011 15:28:52
Adorei a idéia de fazer filhos, Bruno! Isso dito em um momento em que todos pensam em controle de natalidade, somente poderia partir de alguém muito espirituoso e com ótimo senso de humor como você.
Excelente também seu comentário sobre diversidades e êxodo urbano devido à queda na taxa de fertilidade. Há algum tempo comecei a reparar que existem doenças muito mais incidentes em populações urbanas, tais doenças não estão relacionadas ao sistema respiratório ou cardíaco.
Quanto a Detroit, é uma grande cidade e com grande problema de distribuição de renda, o que acabou colocando-a em lugar desagrável quanto a criminalidade: quase 50 homicídios por 100 mil habitantes. Isso para um país de primeiro mundo é alarmante.
Abraço a todos.
Agnaldo

De: Fernando Lara em 25/03/2011 19:13:00
Prezado Padovano,
adorei o comentário, obrigado! Concordo plenamente quanto a necessidade de uma taxa de natalidade sustentável (pouco acima de 2 filhos por mulher) para evitarmos problemas como o do Japão no futuro. Algumas das vilas destruídas pelo tsunami nunca serão reconstruídas porque a maioria de seus habitantes tem mais de 60 anos, falta-lhes dinheiro, tempo e energia para investir no futuro.
um abraço,
Fernando

De: Bruno Roberto Padovano em 25/03/2011 17:54:21
Excelente texto!
De fato, cidades que não diversificam suas atividades econômicas correm esse risco, mas a desurbanização é algo que ocorrerá cada vez mais, na medida em que a população mundial, majoritariamente localizada em centros urbanos, experimentará até o final do século uma forte queda nas taxas de fertilidade, como já ocorre no Brasil. Mesmo que estejamos, globalmente, na "era das cidades", e a maioria dessa população habite nelas, o caso de Detroit nós obriga a um pensamento mais abrangente, em rede, para que todo o investimento em suas infraestruturas, incluíndo o de gerações de arquitetos e construtores, não vire ruína e abandono. Precisamos estimular o mix de funções, o fim dos zoneamentos restritivos e mono-funcionais, para que as nossas cidades tenham vida longa, ou a mais longa possível. Também é boa idéia termos filhos e estimularmos os nossos filhos a tê-los também....é divertido fazê-los e pode ser um dos caminhos em busca de uma maior longevidade para as nossas cidades e regiões metropolitanas.
