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Bruno Roberto Padovano - O arquiteto Bruno Roberto Padovano é professor associado da Universidade de São Paulo, onde exerce o cargo de Coordenador Científico do NUTAU/USP - Núcleo de Pesquisa em Tecnologia da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. É também sócio da Padovano Arquitetura em Rede Ltda.

Um futuro para o nosso urbanismo?


Escrevi, por ocasião do aniversário de São Paulo*, um pequeno artigo que aponta com otimismo para um futuro mais sustentável para São Paulo, quando essa alcançar seus 500 anos de vida, em 2054, desde que trabalhemos com esperança e vontade de mudar a atual realidade até lá.

Usei até uma experiência recente que vivi enquanto um dos passageiros do barco alugado pela ARQ!BACANA, o que me ofereceu a oportunidade de navegar o Tietê, realizando um sonho que propus com minha equipe no Concurso das Marginais, dez anos antes, com direito ao vinho branco no convés que mencionei no artigo.

Em tempos trágicos como esses, com enchentes aqui e terremotos e tsunamis por aí, ceifando a vida de centenas de milhares de pessoas e criando um enorme drama humanitário nos planos local e internacional, devemos, como profissionais de arquitetura e urbanismo, lembrar a todos e através de qualquer veículo da mídia a importância do nosso trabalho, raramente colocado em prática por políticos e técnicos de outras áreas, que muitas vezes dirigem os desígnios das cidades e áreas metropolitanas segundo lógicas que não coadunam com os preceitos de um urbanismo sustentável.

Por exemplo, quantas soluções já foram apresentadas por urbanistas para sanear problemas como as enchentes, que mantém São Paulo uma cidade global com uma infraestrutura urbana letal?

Somente na área de combate às enchentes posso pensar em várias, desde os planos da macrodrenagem realizados nos anos 90, passando pela criação de lagos de contenção às margens do Tietê propostas pela minha equipe na idéia vencedora daquele concurso, aos tetos verdes, parques lineares, arborização intensa e calçadas drenantes tantas vezes defendidos pelos nossos colegas, dentro e fora da máquina pública, infelizmente pouco ou nada aproveitados até hoje.

O mesmo pode ser dito com relação às carências no transporte, deslizamentos de terra com soterramentos de construções (e de pessoas!) em áreas de risco, péssima qualidade do ar, espaços públicos degradados, ausência de uma política habitacional integrada ao transporte de massa, etc...

Por falta de uma gestão urbana de qualidade, leis urbanas obsoletas e demasiadamente genéricas, prioridades incongruentes para obras públicas com as necessidades urbanas da maioria da população, falta de fiscalização e uma atitude às vezes conservadora e preservacionista em excesso por parte dos orgãos públicos fazem vítimas todos os dias, cujas mortes e sofrimento somente são “toleráveis” porque são dos "outros", normalmente os mais pobres da metrópole.

Essa situação clama por um trabalho sério e contínuo por parte daqueles técnicos com uma formação humanista que permanecem, a maior parte do tempo "desempregados" ou limitados em suas possibilidades práticas dentro de prefeituras ou órgãos estatais nos quais o urbanista deveria assumir seu papel de condutor de toda uma orquestra de técnicos, preocupada e instrumentalizada para efetuar as devidas mudanças nas cidades visando sua sustentabilidade, com o aval e participação das forças sociais como um todo.

Uma boa notícia, dentro desse contexto conturbado e angustiante, é a articulação existente de profissionais ibero-americanos no sentido de criar uma Federação das Associações Ibero-Americanas de Urbanistas  (FIU)**. Uma entidade que trabalhe no sentido de cobrar das estruturas político-administrativas desses países unidos por laços culturais antigos um novo papel para o urbanista, através de idéias novas como a criação do Gerente de Cidades, necessariamente urbanista por profissão, com autonomia com relação aos poderes municipal ou estadual e com recursos financeiros próprios para os necessários consertos urbanos e contando com uma equipe multidisciplinar de profissionais na administração pública, universidades e no mercado para desenvolver os projetos de qualificação urbana que se fazem necessários por toda parte.

As experiências recentes de países como Espanha e Portugal, além daquelas realizadas em países do nosso continente, em muito poderão beneficiar a nossa atuação local, se soubermos divulgar os bons resultados obtidos e cobrar a imediata retomada do urbanismo como uma ciência capaz de melhorar cidades no contexto latino-americano, onde as dinâmicas populacionais apresentam um perfil muito mais complexo, criando uma nova perspectiva para o urbanismo brasileiro na era das cidades.

Enfim, agradecendo ao genial colega Márcio Mazza do ARQ!BACANA por esse espaço concedido, sugiro que o nosso lema no positivo encaminhamento dessa nova Federação, que traz um pouco de esperança para nós arquitetos e urbanistas brasileiros, deva ser: "Sem urbanismo, não há futuro urbano".

Bruno Roberto Padovano

* "Sonhando com seu futuro", Revista da Folha de São Paulo, 24/01/2010
** Que está sendo pensada para ser um evento paralelo ao World Urban Forum (WUF) a ser realizado no Rio de Janeiro no final de março de 2010.
 

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