Eduardo Della Manna - Eduardo Della Manna, 52, arquiteto e urbanista, é diretor de Assuntos Legislativos e de Urbanismo Metropolitano do SECOVI-SP, consultor em mercado imobiliário do NUTAU - Núcleo de Pesquisa em Tecnologia da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e membro do Comitê de Mudança do Clima e Ecoeconomia e do Conselho do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Município de São Paulo.

O desafio da Nova Luz


No último dia 12 de maio, a Prefeitura do Município de São Paulo anunciou o resultado da licitação pública que tinha por objeto a contratação de empresa para elaboração de projeto urbanístico para reurbanização da área conhecida como Nova Luz.

O consórcio vencedor terá como desafioArq  recuperar um território submetido, ao longo das últimas décadas, a um intenso processo de obsolescência física, funcional e econômica que pode ser verificado, sobretudo, nos seguintes indicadores: [1] consolidação de novas e potentes centralidades (Av. Faria Lima e imediações da Marginal Pinheiros e da Av. Luís Carlos Berrini), resultado da diversificação de atividades do setor terciário; [2] estrutura fundiária complexa (escrituras condominiais, espólios, propriedade imobiliária pulverizada e, sobretudo, ausência de terrenos vazios para a construção de edifícios compatíveis com as novas exigências empresariais); [3] presença de um zoneamento restritivo, que limita as possibilidades de verticalização; [4] inadequação do padrão das edificações existentes (presença de edifícios antigos e muitas vezes inadaptáveis aos requisitos técnicos atuais); [5] degeneração ambiental e paisagística; e, [6] proliferação de moradias precárias em edifícios deteriorados, criando o cenário ideal para a violência e a miséria manifestarem-se de forma mais intensa, fomentando, inclusive, o crescimento de atividades marginais.

Será recomendável, no entanto, que o projeto urbanístico adote, como método de abordagem, o conceito caracterizado pelo nome de reabilitação  ou requalificação urbana. Trata-se de um conceito originado como reação aos excludentes ambientes criados pelos paradigmas de renovação urbana – com sua habitual e abominável metodologia do “arrasa-quarteirão” -, e que tem, como objetivo, intervir sem necessariamente destruir, valorizando o patrimônio cultural existente e sua população moradora. Desse modo, a sustentabilidade das intervenções é garantida pelo incentivo à participação de segmentos organizados da sociedade civil. Reabilitação urbana, portanto, é uma estratégia que procura requalificar  a cidade existente, por meio de intervenções destinadas a valorizar as potencialidades sócioeconômicas e funcionais e melhorar as condições de vida das populações, que permanecem no local. Isto exige melhores condições de habitabilidade do parque construído e desenvolvimento da vida econômica, cultural e social.

Para isso, será fundamental aproveitar as vantagens competitivas que a região ainda oferece, potencializando seus recursos e incentivando sua ocupação de forma única e diferenciada de qualquer outro lugar da cidade

Uma análise preliminar já nos permite identificar algumas possibilidades que poderão transformar-se em três importantes arranjos produtivos  locais, verdadeiros pólos geradores de inovação e de requalificação, articulados com áreas comerciais vizinhas - dotadas de particular dinamismo na economia popular -, e que poderão desempenhar um papel importante na geração de emprego e renda:

1 - Usina da comunicação: pólo de montagem e de difusão de hardware de baixo custo; desenvolvimento e comercialização de software; criação de uma incubadora de microempresas para jovens; sinergia com a área próxima da Rua Santa Ifigênia, especializada no comércio de material eletroeletrônico; envolvimento de pesquisadores e artistas que trabalham com inovação tecnológica; reciclagem de equipamentos (lixo eletrônico); alta tecnologia a baixo custo; compartilhamento livre em oposição à pirataria;  acordos de cooperação com grupos nacionais e internacionais de pesquisas;

2 - Usina da construção: laboratório de arquitetura popular; uso inovador de materiais e técnicas construtivas alternativas e sustentáveis; sinergia com várias áreas de comércio de materiais de construção e ferramentas existentes na região; desenvolvimento de equipamentos e instrumentos de trabalho a partir das necessidades e práticas da população: carrinhos para catadores de papel, utensílios domésticos, soluções para o uso cotidiano, etc.; cooperação com escolas de arquitetura e design;

3 - Usina da moda: pólo de criação e vendas de vestuário, para jovens estilistas; sinergia com a área próxima de confecções do Bom Retiro; criação de ateliers de produção, áreas de desfiles e lojas; cooperação com escolas de design, SP Fashion Week, etc. 
Richard Florida, professor de desenvolvimento regional da Carnegie Mellon University e autor do livro The Rise of the Creative Class, diz que a vida econômica se desenvolve através da inovação e que ambientes com alta concentração de pessoas criativas crescem mais rapidamente. O segredo estaria no desenvolvimento dos três Ts: tecnologia, talento e tolerância. Territórios que não geram ambientes com diversidade e tolerância entram em declínio econômico.

Certamente, a implementação de novas estratégias de desenvolvimento econômico e social - extraídas do diálogo entre a sociedade civil, o poder público e a iniciativa privada-, poderá gerar transformações efetivas na realidade local. Trata-se, apenas, de construirmos novos paradigmas de uso que garantam a dinamização dos ativos ainda existentes, resgatando o capital simbólico e a capacidade de irradiação de novas tecnologias que poderão, aí sim, configurar-se como ambientes verdadeiramente inovadores e característicos, exclusivamente, desta região da cidade.

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